Deserto do Atacama e Salar do Uyuni – Dia 3

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Hoje começa o meu terceiro dia de viagem aqui no Atacama e só agora vou praticar alguma atividade física, propriamente dita.  Já estou bem mais acostumada com a altitude (2400m) e também com o ar seco. Na primeira noite, acordei umas 4 vezes e nesta apenas uma vez. Umidificar o nariz com soro fisiológico foi uma coisa que eu não tinha o hábito de fazer aqui em São Paulo, mesmo nos dias mais secos e poluídos. Mas aqui no Atacama já está começando a virar um hábito necessário. Hidratação é o grande segredo aqui no deserto, pois ajuda não só com a secura, mas também com a aclimatação na altitude. E tem que ser gradual, um pequeno gole a cada 20 minutos. Caso contrário, terá vontade de urinar toda hora e aqui no deserto a oferta de banheiros é, no mínimo, escassa. Sem falar no quanto de dinheiro que é gasto com banheiro por aqui, principalmente pelas mulheres. O jeito é apelar muitas vezes  pelo banheiro “natural”, normalmente atrás de uma pedra ou do carro. Tenho poucos dias aqui no Atacama, mas já pude notar que aqui aprendemos a valorizar coisas que para nós parece ser algo simples e comum. E banheiro com certeza é uma delas!

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A manhã começou com um incrível e exaustivo passeio de bike. Foram 4 horas pedalando pelo deserto salgado. O chão estava esbranquiçado devido a neve que caiu há um mês por aqui e a umidade faz com que o sal presente nos sedimentos deste solo venham à superfície. Mas a paisagem que vimos durante o passeio não era comum para esta época do ano e a neve que caiu menos ainda. Como vemos neve nos picos, achei que era comum nevar no Atacama. Mas o guia  nos disse que a neve é ainda mais rara que a chuva aqui no deserto. Neve no Atacama é a mesma coisa que nevar na Bahia, segundo ele. Só sinto de não ter tido a oportunidade de ver este fenômeno inusitado de perto. A sensação de pedalar em um lugar inóspito e praticamente desabitado é, ao mesmo tempo, única, exaustiva e muito recompensadora. É como se o deserto tivesse sido especialmente reservado para nós. Durante todo o passeio fomos acompanhados de um guia que conhece muito bem a região, além de uma van e um motorista que nos oferece todo o suporte necessário. As mountain bikes também já estão inclusas. Nossa única preocupação era pedalar e admirar o cenário a nossa volta.

Cenário da pedalada

Cenário da pedalada

O nosso guia que também é dono de uma agência local, nos levou a este lugar exclusivo que ele mesmo apelidou de “Vale de la Luna Escondido”.  Pelo caminho pudemos visitar uma mina de sal abandonada, avistar campos minados e visitar cenários que mais pareciam filmes de faroeste e que inclusive foram palco de um ensaio fotográfico para a campanha de uma grife argentina, a Beagle. Mas existem muitos outros lugares menos exclusivos que podem ser explorados de bike. Aliás é um dos meios mais econômicos de se conhecer os arredores de San Pedro de Atacama. O aluguel de uma bike vai custar, em média, R$25 por pessoa por 4 horas. Uma opção é conhecer a Quebrada del Diablo, um labirinto no meio da Cordilheira de Sal, ou se preferir um passeio mais cultural, Pukara de Quitor ou a Aldea de Tulor. Pukara de Quitor era uma fortaleza que serviu de local para a batalha que determinou a conquista espanhol sobre os índios atacamenhos. Possui uma subida cansativa, mas a vista lá de cima compensa seu esforço. Já a Aldea de Tulor abriga casas circulares que estão juntas entre sei e hoje se encontram a 1m abaixo do nível do solo. É preciso pagar uma entrada de R$15 por pessoa para visitar cada atração. E, claro, como em todo passeio no deserto, não se esqueça de ir sempre acompanhado e levar seu “kit sobrevivência” (filtro solar, boné, óculos de sol e água) e sua máquina fotográfica ou celular para registrar tudo.

Laguna Cejar

Laguna Cejar

DSCN2723Depois de um belo banho e um almoço caprichado no hotel, partimos na parte da tarde para um outro passeio incrível. É difícil achar um programa chato em um lugar onde até um citytour a pé se torna interessante, pelo menos para mim. Nossa primeira parada foi na Laguna Cejar, após quase meia hora por um caminho arenoso e de muitos sacolejos na van . Essa lagoa está localizada na parte norte do Salar do Atacama e, apesar de sua cor esmeralda, atrai os turistas por outro motivo. Suas águas contém uma enorme quantidade de sal (7 vezes maior que o Mar Morto) e, por isso, é impossível afundar. Chegamos ali e havia muita gente dentro e fora dela. Já sabia da “fama” desta lagoa antes de chegar aqui e não havia cogitado ainda a hipótese de não entrar. Mas minha expectativa foi quase a zero quando coloquei as mãos na água. Quem me conhece sabe que, ao contrário da maioria das mulheres, não sou friorenta. Mas ventava bastante neste dia e pensar que teria que entrar naquela água congelante e sair, sem ter onde me abrigar depois, definitivamente não estava em meus planos. Quem já leu meus posts anteriores, não só do Atacama, sabe que tenho um frase que levo na minha mala sempre que viajo: é melhor ir e fazer do que se arrepender depois de não ter ido ou feito. E claro que não precisou de  mais de 2 minutos refletindo para já estar tirando minha roupa (estava com maiô por baixo) e entrar naquela lagoa. Afinal, não sei quando terei e se terei uma oportunidade desta outra vez. A primeira sensação é de choque térmico, a água estava realmente muuuuito fria. Mas quando começa a brincar de boiar, você se esquece e se acostuma facilmente. É preciso tomar muito cuidado com o lugar que você entra e pisa, pois a quantidade de sal é tão grande que se formam muitos cristais e suas pontas são muito afiadas. Por isso, antes de entrar pergunte para o seu guia ou a alguém que conheça a região para lhe indicar um local seguro. Após alguns minutos de diversão, me iludi e pensei que o pior havia passado, mas mal sabia que ele ainda estava por vir. A sensação ao sair da lagoa era de que havia um milhão de agulhas picando meu corpo. Na hora me veio à mente uma reportagem que li há alguns anos atrás na Super Interessante sobre como o sal no gelo acelera o resfriamento da cerveja. Em contato direto com o gelo, o sal puxa calor das pedras de gelo, que ficam ainda mais frias. Mas o grande problema é que a cerveja, no caso, era eu! E além do frio a grande quantidade de sal que fica em seu corpo te deixa com uma coceira irritante. Mas apesar do desconforto é uma experiênciasensacional, como quase tudo aqui neste lugar.

Ojos de Tebinquiche

Ojos de Tebinquiche

Continuando pelo caminho sentido centro do Salar do Atacama, chegamos ao Ojos de Tebinquiche, pequenos poços fundos de água doce onde pudemos ter a chance de tomar mais um banho ou apenas apreciar o Salar do Atacama. Já estava seca novamente e preferi ficar apenas na contemplação. Mas o fato de estarmos no meio de um dos maiores salares do mundo me deixou intrigada de como a água daqueles poços poderia ser doce. Javier, nosso guia que manja tudo de tudo, me veio com a seguinte frase: “La naturaleza és sabia” (a natureza é sábia). Mas diante da minha cara de “eu-não-me-contentei-com-a-resposta-e-sei-que-você-sabe-um-pouco-mais”, Javier me explicou que o norte do Salar é uma região lacustre e composta por oásis banhados pelo Rio San Pedro. Mas a água que alimenta as lagoas e os “ojos”, principalmente, vem da pouca chuva que cai sobre o deserto, do degelo e de rios subterrâneos vindos dos Andes. E uma das únicas explicações para a excepcional água doce dos “ojos”, além da sabedoria da natureza, é a provável presença de filtros naturais no caminho dessas águas, como carvão, areia, etc. E um truque para saber onde encontrar água doce no Salar é seguir os burros selvagens, pois eles só bebem água doce.

Laguna Tebinquiche

Laguna Tebinquiche

Nosso happy hour no deserto!

Nosso happy hour no deserto!

Dali seguimos finalmente rumo Laguna Tebinquiche, uma lâmina de água repleta de ilhas de sal e flamingos. Caminhamos pela borda da lagoa e aos poucos o sol começa a se por detrás das montanhas no lado oposto à Cordilheira dos Andes. Enquanto admirávamos toda aquela vista e nos sentíamos as pessoas mais privilegiadas do planeta, fomos convidados a nos servir de petiscos, frutas secas, castanhas e uma taça de vinho oferecida pelo nosso guia. Desfrutamos de momentos deliciosos enquanto víamos os últimos raios de sol pintarem a Cordilheira dos Andes e seus vulcões de tons azuis e violetas. Era impossível imaginar que aquele momento poderia ficar mais perfeito até ver uma bola branca sair por detrás da Cordilheira. Era a lua cheia que vinha nos dar boas-vindas e enquanto que, do outro lado, o sol se despedia. Um espetáculo surpreendente, tão lindo e tão intenso quanto o pôr-do-sol no Vale da Lua! Pelo que tenho visto até agora, acho que terei que ler mais o dicionário de fazer os próximos posts. Esse lugar acabou com todo o meu repertório de adjetivos! E, Javier, você tinha razão. A natureza é  sábia e perfeita, assim como o seu Criador!

E de repente nasce a lua...

E de repente nasce a lua…

... e do outro lado o sol se põe...

… e do outro lado o sol se põe…

... pintando as paisagens em tons de vermelho...

… pintando as paisagens em tons de vermelho…

...tons de lilás...

…tons de lilás…

... e também de azul!

… e também de azul!

E para finalizar: um incrível reflexo da lua cheia na lagoa!

E para finalizar: um incrível reflexo da lua cheia na lagoa!

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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni-Dia 2|Parte 2

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Após saber um pouco mais da história e cultura da região, por volta das 4:30PM partimos para a segunda parte do dia rumo a um dos passeios mais conhecidos aqui do Atacama: Vale da Lua e da Morte. Quando comecei a descobrir e pesquisar sobre o Atacama, pensava que os dois vales se tratavam de um coisa só e que os passeios por aqui fossem atrações únicas ou desertos clássicos, como aqueles que estão em nosso imaginário desde a época dos desenhos animados. Muita areia, oásis, miragens e alguns camelos. Isto também existe aqui no Atacama, mas com muitos outros ingredientes. Para começar, não existem camelos por aqui, mas animais da mesma família (camelídeos),como lhamas, alpacas e vicuñas. Boa parte região integra a Reserva Nacional dos Flamencos, administrada pela Conaf e compreende cerca de 74 mil hectares.

O VALE DA LUA ou “Valle de La Luna” está localizado a poucos km do centro de San Pedro de Atacama e pode, facilmente, ser alcançada pedalando ou cavalgando. O Vale se encontra em plena Cordilheira de Sal, da qual já tratei no post do Dia 1 e que está paralela a Cordilheira dos Andes, a Cordilheira de Domeyko e ao Salar de Atacama. A Cordilheira e suas várias camadas de sedimentos foram sendo moldados através do tempo pela erosão do vento, da chuva e de outros agentes atmosféricos, fazendo surgir impessionantes  formas, cores e brilhos minerais, compostos basicamente de sal, gesso, clorato, borato e argila. O resultado é uma incrível paisagem inóspita, de diferentes tons de vermelho e espetaculares  esculturas naturais.

Vale da Lua visto do Mirante de Cari

Vale da Lua visto do Mirante de Cari

A nossa primeira parada é no MIRANTE DE CARI, de onde pudemos ter uma linda vista do Vale e podemos nos situar geograficamente. Dali avistamos os Andes e o Salar do Atacama. A ausência de vida animal e vegetal, a falta de umidade, além da grande extensão de areia salpicadas pelo branco do sal que sobe a superfície, nos dá a sensação de estarmos em algum cenário de filme de ficção científica, em outro planeta e até mesmo na lua. Ali compreendemos a razão do nome deste lugar que dizem que foi dado por Gustavo Le Paige, o protagonista do post anterior. Este é o lugar preferido da NASA quando quer testar seus protótipos já que, de acordo com os seus cientistas , é o lugar da Terra mais parecido geologicamente com Marte. Depois da contemplação vem a diversão dos fotógrafos e turistas, já que com muita habilidade e criatividade é possível tirar fotos incríveis e dignas de um porta-retrato ou  “foto de capa” do Facebook. O cenário mais procurado e concorrido é a PEDRA DO COYOTE e pela foto abaixo nem preciso explicar a razão da disputa:

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Dali partimos para o VALE DA MORTE, bem próximo do Mirante de Cari. O vale possui 2 km de extensão e do Mirante é possível ver uma paisagem avermelhada e semelhante ao Vale da Lua, mas com algumas dunas e a Cordilheira dos Andes ao fundo. A cadeia de vulcões e seus picos nevados se fundem com o belo céu atacamenho e nos mostra um horizonte incrível e de tirar o fôlego. Normalmente, os tours fazem apenas uma pequena e rápida parada por aqui e não o cruzam por completo. Mas para quem quiser explorar mais esse Vale, existe a possibilidade de fazer um passeio específico para cá ou ir até o local em cavalos. No entanto, a grande “pegada” do lugar é a prática de SANDBOARD. É possível encontrar passeios (inclusive noturnos) que incluem transporte, prancha e instrutor e é uma ótima combinação de adrenalina e aventura com um visual incrível e bem diferente de tudo que você já viu e vivenciou!

Vale da Morte

Vale da Morte

Existem algumas teorias para o nome do lugar. A primeira porque o local é muito seco e não há vida. Outra, por uma confusão de nomes. Quando Le Paige viu este lugar pela primeira vez, o chamou de “Vale de Marte”, devido à cor avermelhada do solo, como o planeta vermelho. Ao pronunciar “Marte” em francês, confundiram com “morte” e o nome pegou. E uma última que dizia que quando as pessoas estavam muito doentes, os indígenas levavam a pessoa até este Vale e deixavam que a “Pacha Mama” decidisse seu destino. E por muitas pessoas terem morrido neste local, o nome ficou como Vale da Morte. Eu, sinceramente, não sei em qual acreditar, já que todas me parecem bem plausíveis.

Do Vale da Morte seguimos diretamente para a entrada da Reserva. No trajeto passamos pelas TRÊS MARIAS, um rochedo de três pontas que lembram três mulheres e o ANFITEATRO, que visto de cima, lembra uma imensa arena. Bem próximo de onde se paga a entrada do parque de 2.500 pesos chilenos por pessoa (cerca de R$15), existe uma caverna e algumas fendas para atravessar (com o auxilio de lanternas) e depois uma pequena escalada em um morro para ter mais uma vez uma bela vista do local. Não há grandes dificuldades neste passeio, desde que você não tenha problemas de claustrofobia ou de coluna e joelho, já que algumas vezes é preciso agachar bastante e andar curvado. O interessante é verificar a presença de corais petrificados e de cristais de sal nas paredes, já que a cordilheira de sal é um lago emergido há mais de 23 milhões de anos. Saímos dali e seguimos para uma parede de pedra, onde pudemos ouvir bem sutilmente o barulho dos cristais de sal dilatando e se encolhendo conforme a temperatura. O barulho lembra muito, mas em menor proporção, o ranger do gelo nos glaciares.

Corais petrificados e cristais de sal em destaque

Corais petrificados e cristais de sal em destaque

E, por fim, seguimos para a DUNA MAYOR, onde pudemos ver o tão esperado pôr-do-sol.  A subida é um pouco cansativa, mas totalmente recompensadora. O entardecer deixa as cores avermelhadas desta parte do deserto ainda mais fortes e belas. A sensação é mágica, principalmente pela presença da lua cheia neste dia. Nunca vi uma paisagem tão distinta, tão natural e tão linda! Um verdadeiro espetáculo da natureza que, com  aquela aparência tão intocada e selvagem, te leva, mesmo que por alguns instantes, para um mundo paralelo, onde parece não existir mais ninguém. Apenas você e Deus! Naquele momento eu só pensava que eu precisa ter visto isso antes de morrer.  Senti uma das sensações mais magníficas da minha vida, uma mistura de emoção, prazer, paz e de sonho realizado. E são momentos como estes que me fazem refletir sobre a soberania de Deus. Além disso, me realizo como pessoa e reafirmo a certeza que me move: viajar nos faz mais ricos! A cada viagem que eu faço, eu conheço mais, atravesso barreiras internas, supero meus limites e expando meus horizontes. Enfim, viajar me transforma em uma pessoa melhor e não só para mim, mas para os outros também.

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

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Sequência pôr-do-sol!

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Sequência pôr-do-sol

Nesta noite jantei no hotel, pois apesar da realização,  chegamos tarde e o dia foi cheio! Precisava descansar para aguentar 4 horas de bike pela manhã e a tarde Laguna Cejar!

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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni-Dia 2|Parte I

DSCN2380Hoje é o primeiro dia propriamente dito em San Pedro do Atacama. E para compensar o dia cansativo de ontem e ajudar na adaptação da altitude e clima seco, pudemos dormir até as 9:00AM, pois o city tour começava apenas as 10:30. Isto apenas na teoria, pois apesar de ter sido praticamente nocauteada com o “terremoto” da noite passada, a ansiedade de conhecer e explorar o lugar me despertou mais cedo. Aproveitei o tempo livre para conhecer e fotografar o nosso hotel. Vim para o Altiplanico por sugestão de uma amiga que já havia se hospedado aqui e não me arrependi de seguir o seu conselho. O Hotel é uma graça, todo feito de adobe e com uma decoração típica, muito charmosa e acolhedora. O café da manhã não é um banquete, mas é bem completo e saboroso. Por ficar um pouco mais afastado do centro de San Pedro (cerca de 10 minutos a pé), o silêncio é uma das coisas que mais me chamou a atenção, além do atendimento cordial de toda a equipe.  Dos 32 quartos do hotel, apenas 4 tem uma varanda na parte superior e fomos contemplados com este privilégio. Dali se pode ter a  vista privilegiada de todo o hotel e do nosso grande companheiro de viagem: o Vulcão Licancabur.

Piscina do Hotel Altiplanico

Piscina do Hotel Altiplanico

O hotel conta com piscina de água fria, sofás ao livre, sala de leitura, estacionamento e chás, café e águas aromatizadas para se servir a vontade no lobby, além de almoço e jantar. Nosso regime de alimentação compreendia apenas café da manhã, mas caso um dia chegássemos cansados do passeio, saber que existe refeição no próprio hotel gera de certa forma um alívio. Um dos únicos pontos negativos foi a internet wi-fi que deveria pegar no hotel todo, mas que em nosso quarto não tinha sinal. E também senti falta de água mineral de graça, pois sei que muitos hotéis semelhantes ao nosso disponibilizam aos hóspedes, já que é um dos itens principais do “kit sobrevivência” aqui no deserto. Mas de uma forma geral, o hotel nos atendeu muitíssimo bem, até porque sua categoria é media, ou seja, 3/4 estrelas. A opção para hospedagem aqui em San Pedro é enorme, de campings e mochileiros a hoteis super luxuosos, mas falarei sobre isso com mais detalhes em um outro post. Mas o que mais nos chamou a atenção neste primeiro dia de hotel foi um pavão que vive no hotel. Do café da manhã pudemos presenciar todo o seu esforço em conquistar uma pavoa que, muito esnobe, fazia pouco caso dele. Chegava a ser até engraçado sua tamanha insistência, mas apesar da diversão era impossível ignorar a beleza impressionante de suas penas em forma de leque.

O pavão conquistador

O pavão conquistador

San Pedro de Atacama é um povoado pequeno com menos de 5 mil habitantes e seu nome se deve ao santo patrono San Pedro e pela palavra Atacama que, segundo os ancestrais  vem do idioma Cunza “Accatcha” que significa “a cabeça do país”. Para nos situarmos geograficamente, estamos na parte norte do Chile, mais precisamente na Região de Antofagasta. Aqui se destacam a capital de mesmo nome, banhada pelo Pacífico; Iquique, zona franca e também litorânea; Calama, cidade com poucos atrativos, próxima à mina Chuquicamata (maior mina de cobre à ceu aberto do mundo supervisionada pela Codelco) e entrada para o deserto;  e San Pedro do Atacama, que apesar de pequena é o local ideal para se ter como base com o intuito de explorar a região. Esta área foi antigamente habitada por povos nômades e que por volta de 1450 foi conquistada pelos incas. Em 1540, a batalha de Quitor, liderada pelo espanhol Pedro Valdivia, marcou a chegada e o ínicio da dominação espanhola. Mesmo apoiados pelos incas, os atacamenhos são vencidos e a cultura hispânica passa ser a dominante no local.  Inclusive existe ainda hoje a casa onde Valdivia se hospedou quando passou por SPA. Chama-se Casa Incaica e fica localizada na Plaza de Armas, a principal do vilarejo.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

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Gustavo Le Paige

Mas seria injusto falar da história de San Pedro de Atacama sem mencionar uma das figuras mais representativas deste vilarejo-oásis: o padre e também arqueólogo Gustavo Le Paige. Este jesuíta belga chegou ao norte do Chile  na década de 50 com o intuito de substituir um companheiro de estudos e ordenação, o padre Alberto Hurtado. Mas dizem por aqui que a vinda de Le Paige para o Atacama foi uma espécie de punição da Igreja. Ele teria pintado quadros ousados demais, o que teria desagradado alguns cardeais e como pena mandaram o padre belga para o fim do mundo, ou seja, para o Deserto do Atacama. Não sei se é verdade, mas castigo ou não, Le Paige pelo jeito gostou muito de ter vindo para cá. Le Paige dedicou mais de 20 anos de sua vida como padre e, principalmente, arqueólogo da localidade. Como disse no post anterior, o clima extremamente árido da região explica a conservação dos objetos e ao longo dos anos coletou muito material arqueológico. Dentre eles peças de cerâmica, objetos de caça, pedaços de tecido e algumas múmias que descrevem a evolução dos povos  que habitaram a região desde 11 mil anos atrás. Grande parte do acervo está exposto no Museu Arqueológico Gustavo Le Paige, localizada em San Pedro de Atacama, na rua que também leva o seu nome. Este museu foi fundado por Le Paige em 1955, com o apoio da comunidade local e a Universidade Católica do Norte. Além de seu grande trabalho como arqueólogo, Le Paige ajudou a comunidade atacamenha, impulsionando a construção de obras com interesse social como hospitais, escolas e estradas. Ao lado do museu existe um “Solmaforo” que mede e classifica a incidência de raios ultravioleta a qual estamos submetidos naquele momento. Além da altitude e aridez, ainda temos que enfrentar nível extremo, veja só:

Solmaforo

Solmaforo

DSCN2409Ali na Plaza de Armas esta localizada a charmosa e centenária Igreja de San Pedro de Atacama. Suas paredes são de adobe e o teto e as portas são em madeira de cacto cardón. Para a estrutura foi utilizada madeira couro de animais e pregos.  Foi inaugurada no século 17 com  uma missa do padre Cristóbal Diaz de Los Santos e exatamente 400 anos mais tarde foi declarada Monumento Nacional. Apesar dos tetos e as portas da igreja terem sido feitos com madeira de cacto, atualmente ele está protegido visando sua preservação e sua madeira só pode ser utilizada por indígenas depois que está morto. Os muros da igreja foram construídos depois e datam de 1745 e a torre do sino de 1890. A sua cor branca com detalhes em azul, além dos arcos com dentes, me lembram um pouco a Grécia, o mar e me faz pensar se teria alguma influência mitológica. Mas pensar em Netuno no meio do deserto soa bastante esquisito.

Igreja de São Pedro de Atacama

Igreja de São Pedro de Atacama

Árvore de Chañar

Árvore de Chañar

O city tour percorre outras ruas do vilarejo fora o eixo Caracoles, onde fica a maioria  das lojas, restaurantes e agências de viagens/passeios. Com o guia pudemos aprender algumas “manhas” que transformam a nossa vida e estadia em San Pedro um pouco mais comoda e economica. Alguns exemplos: comprar água em mercados ou lojas fora da C. Caracoles custa 20% menos; as casas de câmbio estão quase todas localizadas na Calle Toconao; o lugar melhor e mais barato para se comprar um vinho ou cerveja é nas “Botillerias”;  sempre que puder vá ao mercado acompanhado de algum chileno, a diferença de preço varia muito; e por aí vai. Pelo caminho passamos por algumas árvores típicas da região, como o chañar, o algarrobo, pimenta vermelha e chirimoya, além do rica-rica. Com a semente do chañar, redondinha e com gosto de bolacha ou granola, se faz xarope ou sorvete, além de artesanato. Por possuir alto valor nutritivo, essas sementes eram ouro para os indigenas que as utilizavam como alimento próprio e também para os animais. O algarrobo é uma árvore com troncos retorcidos e sua vagem também é desta forma pela falta de umidade. Da vagem se pode fazer farinha e uma bebida fermentada chamada aloja. Normalmente, se o indigena oferece aloja para um convidado significa que ele é muito bem-vindo.  Já a chirimoya é uma fruta saborosa  típica da região dos andes, parecida com uma pinha. O sorvete de chirimoya, rica-rica e chañar são deliciosos e podem ser encontrados nas sorveterias de San Pedro de Atacama, além de sabores inusitados como de quinoa e folha de coca!

Sorveteria e os sabores típicos da região

Sorveteria e os sabores típicos da região

Terminamos nosso tour e a primeira parte deste post com um almoço em um restaurante indicado pelo guia. O nome é Baltinache e é uma mescla de comida atacamenha e mapuche. O menu com entrada, prato principal e sobremesa saiu por 7.000 pesos ( R$ 38.00 mais ou menos). Comida saborosa, saudável (aqui tem muita quinoa!), mas sem surpreender. Se for ao restaurante, pedir um prato com uma batata azul,típica da região, mas difícil de encontrar. Hoje, por exemplo, não tinha. Fica um pouco afastado do centro, mas para almoço achei uma boa opção.

Resolvi dividir o segundo dia em dois posts para não ficar muito grande e pesado de ler. A segunda parte do post é sobre o incrível passeio da tarde para o Vale da Lua e Vale da Morte, com o entardecer mais diferente que eu já vi!

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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni – Dia 1

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Hoje é o primeiro dia dos dez que passarei no norte do Chile e sul da Bolívia, onde estão localizados o Deserto do Atacama e Salar do Uyuni, respectivamente. E todo o roteiro tem uma razão de ser. Estamos em uma região de grandes altitudes e a ordem dos passeios permite que o corpo passe por uma aclimatação com o passar dos dias. Mesmo que você já tenha alguma experiência em altitude, é bastante aconselhável respeitar a ordem para que não haja grandes problemas ou qualquer comprometimento que atrapalhe sua viagem. A diferença de altitude entre São Paulo e San Pedro de Atacama já é considerável: cerca de 1600m. Mas a altitude, por enquanto, ainda não é o problema, mas sim a sequidão. Não é a toa que o Atacama é o deserto mais árido do mundo. A precipitação anual tem sido abaixo de 3 milímetros nos últimos 50 anos, uma das marcas mais baixas do planeta. Mas a baixa umidade, que pode ser nociva aos turistas e exige uma série de adaptações para as espécies que ali habitam, tem as suas vantagens. Ela permite que utensílios e objetos fabricados por grupos humanos há milhares de anos permaneçam em excelente estado de conservação e se transforme em um tesouro para arqueólogos e estudiosos. Mas as diversas mudanças climáticas que acometem o mundo atual permitiu que há um mês atrás ocorresse um evento difícil de se imaginar por aqui – nevou no deserto mais árido do mundo!

A baixa umidade do ar, aliada à limpeza da atmosfera e à altitude elevada em relação ao nível do mar, proporciona uma  enorme visibilidade (cerca de 300km de distância) e visão nítida das estrelas. E, por isso, o Deserto do Atacama se tornou um dos lugares mais propícios do mundo para observar o céu e o espaço. É um dos principais campos de observação para o desenvolvimento de pesquisas da Nasa, que chegou a afirmar que o Atacama é o lugar que mais se parece com a superfície de Marte. Por esta razão, astrônomos do mundo inteiro deslocam-se para cá e no começo deste ano foi inaugurado o Observatório Europeu Alma, que explora o universo através de ondas de rádio (radioastronomia) emitidas por galáxias, estrelas e outros corpos celestes. O gigantesco projeto, estimado em US$ 1,5 bilhão, reúne 66 antenas a 5000 metros de altitude (Planície Sajnantor) que funcionarão como um único grande telescópio, com resolução 10 vezes superior ao telescópio espacial Hubble. A cidade oferece inúmeros passeios astronômicos, aluguel de telescópios e outros mais específicos oferecem o passeio combinado com astrologia e/ou cultura indígena, predominante na região.

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Saímos de São Paulo por volta das 7 da manhã rumo a Santiago com a empresa chilena LAN (LATAM) em um voo tranquilo e com um bom serviço de bordo. De Santiago pegamos um voo até Calama, a cidade com aeroporto mais próxima de San Pedro de Atacama. Fomos de LAN, mas existe a opção de voar até Calama com a Sky Airline. O voo dura cerca de 1 hora e 45 minutos e dali já é possível notar as mudanças drásticas de paisagem. E sempre com a bela companhia da Cordilheira dos Andes . O cenário único e distinto de tudo foi o que mais me atraiu a este destino e ao descer no aeroporto de Calama tive a deliciosa sensação de ter a minha expectativa atendida. O aeroporto é bem pequeno, mas bem simpático. Ali também já pude sentir que o meu kit de sobrevivência para o deserto não era em vão. Só com óculos de sol, boné, soro fisiológico e protetor solar e labial é possível resistir ao clima seco do deserto. E, claro, sem esquecer de beber muuuita água!!! O deserto do atacama pode ser visitado o ano todo, mas as melhores épocas são na primavera (entre setembro e novembro) e no outono (entre março e maio). No deserto a amplitude térmica é muito grande e viajando nesses períodos as temperaturas tendem a ser mais agradáveis. No Salar do Uyuni na Bolívia essas datas mudam um pouco, por conta da época das chuvas, mas será um assunto que tratarei mais adiante em outro post.

O caminho de 1 hora até San Pedro do Atacama pode ser feito por transfers, ônibus ou taxi a partir do aeroporto.  Se a sua opção for o transfer, é aconselhável reservar com antecedência, principalmente para os voos das 7:30AM. Existem ônibus que realizam viagens desde Santiago diretamente a San Pedro de Atacama ou de outras cidades chilenas até Calama. Também é possível ir de ônibus de Salta, na Argentina, diretamente até San Pedro, em uma viagem que dura cerca de 9 horas. Da Bolívia não existe qualquer tipo de transporte comercial e este só pode ser feito por empresas de turismo ou agências de viagem. Quem quiser ir de carro, ao sair de Santiago basta acessar a Ruta 5, conhecida como Panamericana Norte, que separa a capital chilena de São Pedro de Atacama. São cerca de 1.900 km. Estando em São Pedro de Atacama, para se chegar a Calama, basta acessar a Ruta 23, que liga as duas cidades.

Vulcão Licancabur

Vulcão Licancabur

Pegamos a estrada sentido Calama e no caminho já podemos notar a paisagem de pedras e areia, com tons monocromáticos e emoldurado pela Cordilheira dos Andes, a mais jovem do planeta e cheia de vulcões. são mais de 200 deles por toda a cordilheira, mas o que mais chama a atenção, com certeza, é o Licancabur. Ele será nosso companheiro de viagem tanto no Atacama quanto na Bolívia, quando estivermos mais próximos a fronteira. Seu formato cônico perfeito e seus 5.916 metros de altura o torna ainda mais imponente e instiga até aos que não são apaixonados por montanhismo. É considerado um vulcão semi-ativo e oferece aos corajosos e capacitados montanhistas cumes nevados e um lago no interior da sua cratera. A subida pode ser feita desde  acampamento base, localizado a 4300 metros ou de um acampamento intermédio localizado a 4700 metros. Iremos tentar escalar o Vulcão Toco, daqui a alguns dias, mas será em nosso 5o ou 6o dia, pois precisamos estar bem aclimatados para fazer. O VulcãoLicancabur também é de enorme interesse arqueológico e antropológico pois ali existem registros que lembram antigas cerimônias sagradas realizadas pelos incas.

Fizemos algumas paradas durante o caminho e pudemos sentir mais um elemento bastante presente no Deserto do Atacama: o vento. Em um pequeno descuido seu boné ou óculos de sol pode ser levado para sempre. Mas apesar de parecer agressivo, se torna agradável pelo leve e suave sabor de sal. não seria diferente, uma vez que estamos atravessando a Cordilheira de Sal . Trata-se de um lago emergido, onde antigas camadas de sedimentos com diversos minerais (sal, gesso, argila, etc) de cerca de 25 a 30 milhões de anos foram empurradas e levantadas pelo movimento da mesma placa que criou a Cordilheira dos Andes. Dali se tem uma incrível visão panorâmica do Vale da Lua e também do Salar do Atacama, os quais visitaremos nos próximos dias.

Calle Caracoles, a principal da cidade de San Pedro de Atacama

Calle Caracoles, a principal da cidade de San Pedro de Atacama

Por fim, chegamos em San Pedro do Atacama e em nosso Hotel (Altiplânico) que serviria de refugio pelos próximos 6 dias, antes de pegarmos estrada rumo a Bolivia e o Salar de Uyuni. Já era praticamente 6:00PM e resolvemos conhecer o centro e jantar por lá. Depois de uma pequena caminhada de 10 minutos do hotel, chegamos a Calle Caracoles, a rua principal de San Pedro. As estradas são todas em terra e todas as construções do centro devem ter revestimento de adobe, material feito de barro/argila, palha, ossos de animais e as vezes sementes. Essas construções além de manter a tradição são muito resistentes e mantém o interior das casas muito fresco, suportando muito bem as altas temperaturas do deserto. E ao entrar na Calle Caracoles fomos brindados com uma festa típica, pois descobrimos que estávamos na semana de festas pátrias, onde os chilenos comemoraram sua independência. A data é 18 de setembro, mas as comemorações seguem durante toda a semana, com comes e bebes (“chicha”, “piscola”) de graça, além de muitas bandeirinhas e danças.

Danças e músicas típicas

Danças e músicas típicas

Pesquisando um pouco mais sobre o assunto descobri que 18 de setembro não se comemora a independência do Chile, mas sim a formação da primeira junta de governo convocada pelos aristocratas chilenos, cujo objetivo era decidir quais medidas seriam tomadas durante a prisão do Rei Fernando VII da Espanha capturado por Napoleão Bonaparte. Este acontecimento deu início ao processo de independência, que culminaria oito anos mais tarde, mais precisamente no dia 12 de fevereiro de 1818, com a assinatura da Ata de Independência, que consistiu em um documento emitido oficialmente pelo então governador supremo Bernardo O’Higgins. Mas independente do que se comemora, o importante é que nos juntamos aos chilenos e apreciamos uma bela “parillada” acompanhado de “sopaipillas” e “pebre”. E para completar um belo e poderoso “terremoto”! Tudo isso em um ambiente muito agradável no restaurante “La Casona”.

"Sopaipillas" e "Parillada"

“Sopaipillas” e “Parillada”

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“Terremoto”

Farei um post separado sobre os restaurantes que fui, os que mais gostei e falarei das comidas típicas chilenas e atacamenhas. Agora só me resta descansar, porque amanhã o dia apesar de leve, será bem cheio.

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Ushuaia – Cerro Castor – Dia 5

Ushuaia 001

Havia programado tantas coisas bacanas para Ushuaia que fica dificil dizer que este era o dia mais esperado. Mas estava muito curiosa para saber como seria meu desempenho em esportes de neve, pois nunca havia praticado antes. Sempre tive vontade experimentar e, antes de ir, pesquisei um pouco sobre qual a seria o melhor esporte para o meu debut: esqui (ski) ou snowboard. Na maioria dos relatos e opinioes, deveria escolher o esqui ( ski ), por ser considerado um pouco mais facil do que o snowboard. Ao contrario do snow, no esqui voce cai menos e as (muitas) quedas sao, normalmente, para os lados e menos lesivas, pois a bota se solta das pranchas exatamente para evitar torcoes. No caso do snowboard, por ser uma prancha unica e os dois pes ficarem presas nela, as quedas sao mais fortes e mais violentas, pois voce cai para frente ou para tras e a chance de se machucar eh bem maior. Outro detalhe que pesou na minha escolha foi que sempre fui melhor nos patins do que o skate ou surf . Na maioria dos casos que vi aqui em Ushuaia, a grande diferenca de um para o outro era de que, normalmente, os iniciantes, criancas ou adultos, comecam praticando esqui. Mas quem gosta de algo mais “free style” ou radical migra para o snowboard. Cheguei ate a ouvir que o esqui eh mais elitista e o snow mais “maloqueiro”. Isto porque no esqui voce nao precisa tocar a neve com frequencia e se apoia nos bastoes, enquanto que no snow nao tem frescura, voce tem que sentar na neve quase toda hora e tem mais dificuldade para se deslocar no plano mas, em contrapartida, da mais liberdade de manobras ao praticante. E independentemente da sua opcao, acredite, ambos sao extremamente prazerosos e viciantes.

Cerro Castor eh o resort de esqui mais ao sul do planeta e por esta razao e outros fatores como qualidade da neve, orientacao da montanha, entorno geografico e clima, permite uma temporada mais extensa e torna este centro de esqui um lugar especial. Alem disso, muitas de suas pistas estao homologadas pela Federecao Internacional de Esqui e foi eleito por varias equipes de competicoes europeias como local de treinos. A estacao conta com 600 hectares esquiaveis, 25 pistas com diferentes niveis de dificuldade, varios restaurants, 10 meios de elevacao (dentre telefericos “cadeirinha”, de superficie e “magic carpet”) de ultima geracao, uma area para principiantes e seu “snowpark” eh considerado um dos mais modernos da Argentina. Cerro Castor sera sede do Interski 2015, o Congresso Internacional de Esqui. Sera a primeira vez na historia que um Interski sera realiazado no hemisferio sul! Pelo video abaixo da para sentir um pouco do clima deste lugar que, apesar do frio, transpira esporte!!!

Um dos pontos negativos sao os 26 km de distancia do centro de Ushuaia. Alem disso, achei bastante burocratico e demorado todo o “processo” para quem for passer apenas o dia em Cerro Castor, que foi o meu caso. Cheguei na estacao por volta das 10 da manha, horario de abertura. Ja havia comprado aqui no Brasil e estava com vouchers para o transfer, entrada, meio de elevacao e aluguel da roupa neve e equipamento completo. Assim que cheguei, me dirigi a bilheteria, mas como ja estava com os vouchers, teria que ir diretamente para uma outra fila, dentro do predio. Ali peguei meu ticket e mapa da estacao de esqui. Como nunca havia praticado nenhum esporte de neve antes tinha interesse em aulas particulares. Me dirigi ao balcao de informacoes para saber como, onde e quanto custariam estas aulas. Ela me disse com uma cara bem desanimadora de que eles estavam quase sem horarios e que teria que perguntar na escola se ainda teria horarios disponiveis. Quando mencionei que gostaria de aulas particulares, o rosto da atendente mudou e me informou que ainda tinham alguns horarios a tarde, mas que deveria ir rapido, pois restavam poucos lugares. Dali, sai correndo ate a escolar que fica em uma outra parte do complexo, atravessando um ponte sobre um rio congelado. Alias, esqueci de mencionar que nevava bastante neste dia. Chegando a escolar, aguardei em uma fila por mais ou menos 30 minutos, ate ser atendida por uma moca simpatica que me disse que so haveria aulas as 14:00 horas sob um custo de 780 pesos. Apesar de achar um pouco caro, aceitei, afinal nao me valeria nada subir ate la, afinal era a minha chance de experimentar e aprender um pouco mais sobre um esporte que, infelizmente, nao posso praticar aqui no Brasil. Uma dica importante eh reservar as aulas com atecendencia para evitar este tipo de problema. Se soubesse que poderia reservar, eria reservado 2 aulas para o mesmo dia. De la, atravessei a ponte novamente e segui rumo ao predio principal, onde alugaria os equipamentos. No voucher estava escrito “equipamento completo”, mas isso significa apenas botas, esquis, bastoes e capacete, sendo o ultimo opcional. Importante saber que os oculos nao estao inclusos. Ja havia pergunto para o meu guia antes e comprei em uma das lojas da Avenida San Martin e nao sao tao caros. E possivel encontrar oculos (que mais parecem mascaras) por cerca de 150 pesos. Se for principiante e o tempo estiver ensolarado e sem vento, nao ha necessidade. No meu caso, nevava e ventava muito e nao me arrependo nem um instante de ter comprado. Caso queira comprar na hora tambem eh possivel, pois existem duas lojas POPPER que vendem todo tipo de equipamento para neve, snowboard e esqui. Pelo que me disseram a loja, que existe tambem no centro de Ushuaia, eh tambem do dono do Cerro Castor.

Aluguel de equipamentos

Aluguel de equipamentos

Para alugar o esquipamento mais uma hora de fila, alem de ouvir muito portugues. Fiquei impressionada com a quantidade de brasileiros por aqui! O processo funciona assim: voce preenche um papel com seus dados, passa primeiro pela botas, onde existem varios rapazes que te ajudam a encontrar uma bota do seu tamanho. Voce senta em um banco e ele coloca nos seus pes. A bota de esqui parece muito com botas de patins in-line, mas eh mais pesada e te projeta para frente, o que te faz andar esquisito quando esta sem as pranchas acopladas a elas. Depois das botas, voce pega seus esquis, depois os bastoes e, por ultimo, o capacete. Como estava com mochila, tive que alugar um locker (armario) por 30 pesos. Depois de tudo guardado, coloquei todo o equipamento, menos os esquis, e me dirigi ao teleferico para subir ate a area dos principiantes, onde teria as minhas aulas. Como nao tenho pratica fui aconselhada a nao subir com os esquis nos pes e entreguei ao funcionario que os colocou em uma cadeira a parte. A subida dura cerca de 5/10 minutos (na minha contagem mental) e a paisagem eh incrivel. Era um misto de alegria, ansiedade e medo do que poderia acontecer. Mas tinha que encarar, afinal, estava ali toda paramentada para isso. O maximo que poderia acontecer era um grande trauma e o desejo de nunca mais enfiar meus pes em uma bota com esquis. Mas mesmo depois de um tombo homerico ao sair do teleferico, nao me tirou a enorme satisfacao de esquiar na neve fofa. Alias, considero o hematoma enorme no meu quadril o carimbo de entrada para o mundo dos esportes de neve! Apos me recuperar da vergonha e da dor daquele tombo, fiquei anestesiada pela sensacao de estar ali, com todas aquelas pessoas com roupas coloridas, passando com seus esquis e snowboards pra la e pra ca. Mesmo sem poder ver o sorriso das pessoas, pois estavam cobertas dos pes a cabeca, apenas com os narizes a mostra, dava para ver e sentir que estavam se divertindo. Fiquei por um momento paralisada e sentindo aquela vibracao gostosa, da mesma forma de quando entro em um estadio de futebol. O gramado verde foi susbtituido por neve muito branca e, neste momento, senti falta de estar com alguem para dividir este momento. Olhei para o relogio e ja passava do meio-dia. Voltei a realidade e percebi que todo o processo havia demorado mais que duas horas e isto tirou um pouco do prazer experimentado havia poucos segundos.  Como minha aula comecava as duas horas resolvi almocar e enfrentei  mais um momento burocratico: tira esqui, guarda esqui, guarda bastao, entra no restaurante, tira luva, tira gorro, tira oculos, tira capacete, pega fila, pega bandeja, pega talher, pega comida, pega bebida, estou com calor, poe bandeja no balcao, tira casaco, tira cachecol, pega bandeja, pega fila, deixa bandeja no balcao, pega dinheiro, guarda dinheiro, pega bandeja, procura lugar, procura lugar, procura lugar, coloca bandeja na mesa, senta, almoca, levanta, coloca cachecol, coloca casaco, coloca luva, coloca gorro, coloca capacete, coloca oculos. Agora imaginem a minha preguica quando cheguei na porta do restaurante e, ao sentir o frio que estava la fora, me deu vontade de fazer xixi…

ski

Como ainda faltava quase 1 hora para a minha aula, resolvi experimentar  e descer algumas rampinhas na area para principiantes. Confesso que as criancas foram a minha principal inspiracao. Quando voce ve aqueles pequenos de 5 anos descendo as rampas, voce pensa: “eu tambem posso”. Vendo eles descendo e subindo parece tao simples, mas nao eh. So para se deslocar de uma parte a outra leva um tempao, mas minha vontade de descer era tanta que cheguei rapidinho nas esteiras que te levam ate o alto de uma pequena pista. Levei um tombo logo de cara, pois nao sabia que era preciso projetar seu corpo para frente, como se estivesse forcando a canela na lingua da bota. E aprendi com esta queda um dos primeiros e principais fundamentos do esqui. Fiquei espiando outros alunos e, apos aprender como frear, resolvi descer a primeira rampa e foi mais facil do imaginei. Se for principiante, como eu, recomendo muito as aulas particulares com instrutores. Elas sao importantes para aprender a esquiar sem vicios. Mais ou menos como aprender a dirigir. Entendi que o esqui exige muito dos pes, dos dedos, do tornozelo e pernas. Aprendi que a parte do corpo acima da cintura tem que ficar relaxada (o que foi muito dificil para mim) e que os bastoes devem permanecer sempre com as pontas para baixo para nao machucar ninguem. Mas o principal de tudo eh a consciencia corporal. No esqui se usa partes do corpo, principalmente dos pes, que nao estamos acostumados a usar. E quando voce passa a ter consciencia de que parte deve ser valorizada, tudo fica mais facil, Mas como todo o esporte, treinar eh o fundamental. Em 1 hora e meia de aula consegui descer minha primeira pista “oficial”. Mesmo que seja uma pista nivel iniciante,  nunca imaginei que conseguiria alcancar este resultado em apenas 1 aula. Isso deixou um gostinho de quero mais e, apesar de todas as quedas, roxos e afins, a minha primeira experiencia nos esportes de neve foi maravilhosa e inesquecivel!

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Ushuaia – Dia 5

Ushuaia 027

Hoje o dia foi longo, pois alem da Travessia de Lagos em 4×4, fiz um passeio noturno chamdo “Neve y Fuego”.  Sai do hotel por volta das 9 da manha e segui por veiculo 4×4 (Defender) para a regiao dos Lagos Escondido e Fagnano pela Ruta Nacional n. 3, aquela que disse no post de ontem que terminava em Lapataia. Agora estou viajando sentindo norte, rumo a Rio Grande, uma outra cidade da ilha. Acho que ainda nao cheguei a mencionar aqui, mas Ushuaia esta localizada em umas das ilhas do arquipelago da Terra do Fogo (Malvinas) e esta separada da America do Sul pelo estreito de Magalhaes.  Recebe este nome, pois foi o explorador Portugues Fernao de Magalahes o primeiro europeu a chegar a regiao por volta de 1520. E foi Magalhaes que apelidou essas ilhas como Terra do Fogo, pois avistou ao chegar diversas fogueiras das tribos silknam, kaweskar, manekenk e yamana que aqui habiatavam. O arquipelago consiste de uma grande ilha principal (onde esta Ushuaia) e outras menores. Por esta razao, Ushuaia so eh acessivel de carro via Chile, pois eh apenas no pais vizinho que existe um ferry, na parte mais estreita do Estreito de Magalhaes. Todos nos sabemos que a Cordilheira dos Andes eh o principal divisor natural entre Argentina e Chile, mas aqui na Terra do Fogo guarda uma peculariedade. Se observar em uma mapa bem detalhado, ira perceber que a Cordilheira faz uma curva aguda a direita, antes de tocar o mar. E este fato torna Ushuaia a unica cidade Argentina que esta a oeste da Cordilheira. E esta informacao eh importante para este post, pois para chegar ao Lago Encondido e Fagnano, ao Norte, temos que atravessar a Cordilheira pelo Paso Garibaldi e eh o unico lugar da Argentina onde ao passar a Cordilheira continuamos em solo argentino.

Vista do Lago Escondido do Mirante do Paso Garibaldi

Vista do Lago Escondido do Mirante do Paso Garibaldi

Ushuaia 014O Lago Escondido pode ser visto da propria Ruta n.3, onde paramos  em um mirante para uma foto, com um vento forte e gelado. O guia disse que estava com sorte, pois o nome “Escondido” vem do fato de ele quase sempre estar coberto por nevoa e serracao. Foi a primeira vez que senti que um vento era forte o suficiente para me carregar. Apesar da linda paisagem, tive que voltar ao carro, onde seguimos por mais alguns kilometros ate entrarmos a esquerda em uma antiga trilha de lenhadores. Pelo caminho paramos para avistar mais um dique feito por castores. Todo o trabalho que podem ver na foto abaixo, acredite, foi feito por apenas um casal de castores. Achei o maximo o pedaco de madeira roido por eles! Me lembrou desenhos animados, como do Pica-pau e Disney que, de vez em nunca, aparecia um castor que roia a madeira ate ficar deste jeito (quem lembra?).

Ushuaia 025

Lago Fagnano

Ushuaia 029Dali seguimos, finalmente, para o Lago Fagnano.  Quando cheguei, a garoa fina que nos acompanhou desde Ushuaia, se transformou em um lindo sol, o que deixou minha primeira vista do Lago ainda mais impactante.  Este lago ocupa cerca de 645 km quadrados e eh muito procurado para a realizacao de pesca esportiva, principalmente de truchas arco-iris. Ali tambem eh considerada uma zona sismica, pois no solo do Fagnano se encontram duas placas tectonicas:  a Sul-americana e a Scocia. Nao ha muitos casos de terremoto na regiao, pois as placas estao quase no mesmo nivel, o que evita os choques e tremores frequentes. Os ventos intensos fazem com que se formem pequenas ondas quando chegam na margem, tanto eh que para quem nao sabe pensa que esta diante de um mar e nao de um lago. Como estavamos em um carro 4×4 , fomos margeando o lago pelas pedras e pela agua e o guia parou para que descesse, pois como fazia um lindo sol, poderia caminhar um pouco e me encontrar em um ponto mais a frente. Ao chegar, uma deliciosa suspresa! O guia nos aguardava com um bule sobre uma fogueira, onde pude experimentar um delicioso e tradicional cha de “mate cozido”. Ali conversamos um pouco e ele nos disse que a temperatura do lago nao muda muito, se mantem como um microclima, normalmente, em 4 graus.Explicou tambem que  ali eh uma grande area de camping e que no verao  existem muitas opcoes de passeios, tais como pesca, caminhadas, aluguel de cavalos, passeios de caiaqui, bicicletas, etc.

Aventura de 4x4 pelo Lago Fagnano

Aventura de 4×4 pelo Lago Fagnano

Retornamos pelo mesmo caminho que viemos e paramos para almocar, cerca de 70km dali, no Centro Invernal Tierra Mayor.  Este eh apenas um dos 11 centros invernais de Ushuaia e foi o primeiro a desenvolver atividades invernais regiao. Ali eh possivel praticar esqui de alpino ou de fundo, passeios de trenos puxados por huskies siberianos ou pilotar motos de neve. E dali sai meu passeio que farei daqui dois dias, chamado “Aventura Blanca”. O almoco ja estava incluso no passeio e consistia em um buffet de salada para se servir a vontade. Simples, mas com varias opcoes de legumes e verduras. Para o prato principal duas opcoes apenas: truta em papel aluminio e recheado com vegetais e, cordeiro patagonico assado. Como ja havia experimentado a truta em El Calafate, resolvi escolher o cordeiro, que tambem eh um dos pratos tipicos da regiao. Vinhas em grandes pedacos em uma chapa e, apesar de nao gostar muito por achar o gosto um pouco forte, estava saboroso e macio. A sobremesa tambem estava inclusa e das muito opcoes escolhi o tambem tradicional flan, acompanhado de creme e doce de leite. Muito bom!

Praticantes de esqui alpino ou de fundo no Centro Invernal Tierra Mayor

Praticantes de esqui alpino ou de fundo no Centro Invernal Tierra Mayor

De Terra Mayor, segui para o hotel, onde pude descansar por 1 hora e meia antes de sair para o passeio “Neve y Fuego”. As 18:30 sai para o passeio, tambem na regiao do Vale Mayor, mas nao no centro invernal. Estava com muita expectativa, pois quando li no descritivo me imaginei em um treno puxados por huskies por uma trilha sinalizada com tochas ate um refugio onde apreciariamos um belo jantar tipico de montanha ao som de um animado violao e o retorno feito com motos de neve. Foi uma grande decepcao. Nao so pelas grande expectativa, mas porque ate agora nao entendi a razao do nome “fuego” ao passeio. Nao havia tochas e tampouco violao. Chegamos de van ate a cabana e fomos recebidos e convidados a deixar nossos itens em uma cadeira e sairmos para passeios de treno, motos e raquetes de neve. Como estava sozinha, me fizeram companhia duas simpaticas mexicanas, mae e filha da Cidade do Mexico. Primeiro fomos ao treno, mas demorou bastante tempo ate que soltassem os cachorros do canil e amarrassem nos trenos. O passeio foi lindo, mas um pouco incomodo porque nao havia muita neve no percurso e o treno batia muito no chao. Dali fizemos o passeio de motos de neve. Cada um com sua moto, mas nao consegui deselvolver a velocidade que queria, pois tinha que ir atras do guia e, alem de acelerar pouco, tinha que frear e parar com frequencia, para que os trenos de cachorros com o outro grupo passasse. Por fim, as raquetes de neve,  bacana, mas sem nehuma emocao. Senti um pouco de desorganizacao e amadorismo por parte dos guias e organizadores. Ah! E o jantar tipico da montanha…um foundue de queijo pouco animador. Bom, nao sei se foram as minhas proprias expectativas, mas nao recomendo este passeio. Prefiro um bom jantar em um dos deliciosos restaurantes de Ushuaia, afinal o passeio nao foi barato. Mas como eu sempre digo: prefiro experimentar e nunca mais voltar, do que ouvir falar e nao vivenciar!

E amanha eh dia de (tentar) esquiar no Cerro Castor!!!

Husky Siberiano - um dos cachorros utilizados nos passeios de trenos

Husky Siberiano – um dos cachorros utilizados nos passeios de trenos

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Ushuaia – Dia 4

Ushuaia 069

Nesta noite, por mais que tenha dormido 8 horas, acordei bastante cansada. Creio que seja pela tensao do voo ontem. Mas a vontade de conhecer Ushuaia era tanta que logo estava pronta para tomar café da manha e sair. O carro do receptivo passou para me buscar as 9 da manha e seguimos para a Estacao Macarena, cerca de 8 km do centro e local de embarque para o Trem do Fim do Mundo. Ja havia lido a respeito deste passeio e os comentarios se resumiam a ame ou odeie. Uns diziam que era imperdivel e outros que era bem monotono. Na duvida, prefiro ir e formar minha opiniao. E querem saber? Foi incrivel!!! Toda aquela neve que caiu na noite passada e que quase nos impediu de pousar em Ushuaia, se transformou em um dos cenarios nevados mais lindos do que eu poderia imaginar. E isso poderei comprovar pela sequencia de fotos a seguir:

Ushuaia 072

Ushuaia 051

Ushuaia 040

O trajeto feito com trens confortaveis e com calefacao, nos leva a conhecer lugares onde os antigos presidiarios realizavam seus trabalhos. Eu tambem nao sabia, mas Ushuaia era a principio, em 1884, uma colonia penal. O governo argentino tinha que povoar o seu lado do arquipelago no intuito de confirmar sua soberania. Os planos nao sairam como o desejado, mas os criminosos condenados permaneceram e foram transferidos para a prisao de Ushuaia que, de 1902 a 1947, abrigou criminosos de alta periculosidade, tal como a ilha de Alcatraz, nos EUA. Estes condenados eram transportados por este trem, sem as mordomias atuais, mas para trabalharem cortando arvores, construindo ferrovias e ajudando a erguer a cidade que conhecemos hoje. Atualmente, esta prisao virou um museu aberto a visitacao e que pretendo conhecer nos proximos dias.

Ushuaia 085

O percurso do trem dura, aproximadamente, uma hora e inclui uma parada na Cascata Macarena. O trem percorre um trecho do Parque Nacional Terra do Fogo, o unico do pais com saida para o mar e que ocupa uma superficie de 63.000 hectares. A neve e o clima deixaram o passeio ainda mais agradavel. Ao chegar ao ponto final do trem, continuamos o passeio em uma van com poucas pessoas pelo Parque. Muito bom poder conhecer um pouco mais de vegetacoes e animais tao diferentes do nosso pais. Pelo caminho cruzamos com varias raposas coloradas e pudemos conferir e conhecer um pouco mais do trabalho/destruicao dos castores na regiao. Foram trazidos do Canada cerca de 25 casais para habitar a regiao, mas nao puderam prever que iriam destruir grande parte do bosque com seus diques, pois nao havia e nao ha predadores para eles na regiao. A culpa nao sao dos castores, mas dos seres humanos que acabam causando um desequilibrio ecologico na por falta de estudo e planejamento.

Area dos esquilos

Area dos esquilos

Ushuaia 119Dali passamos por paisagens incriveis como a Laguna Verde e vegetacoes muito diferentes, como a turfa e lengua, presente por quase todo o bosque. A proxima parada eh na Bahia Lapataia, onde termina a Ruta Nacional 3, que precorre a Argentina de Norte a Sul e eh continuacao da Rodovia Panamericana em territorio argentine que tem inicio no Alaska. Eh o ponto mais austral da America do Sul e um indicador de que realmente cheguei ao fim do mundo! Deste ponto ate a Antartida sao “apenas” 800 km!!! Como podem ver na foto, existe uma placa que indica e resume tudo isso que acabei de dizer. Muito proximo de Lapataia, esta o antigo Lago Roca e que agora se chama Acigami. Eh um lago compartilhado entre Chile e Argentina, onde se pode acampar e que tem um visual de tirar o folego de tao lindo!!!! A foto fala por si so…

Lago Roca ou Akitami

Lago Roca ou Akitami

Ushuaia 246A segunda parte do passeio eh a navegacao pelas aguas do Canal Beagle. O canal recebeu este nome como homenagem ao barco HMS Bagle que chegou a esta regiao por volta de 1830 com intuito de realizar um estudo hidrografico. A segunda viagem do Beagle, sob o commando do capitao Fitz Roy, que trouxe em 1833 Charles Darwin, o qual pode avistar pela primeira vez um glaciar e com os animais da regiao. Peguei o catamara no porto da baia de Ushuaia, onde tambem esta a placa de “fim do mundo” (foto). Nesta epoca do ano o passeio eh mais curto e percorre a costa norte do  canal, passando pela ilha dos passaros, ilhas dos lobos e Faro Les Eclaireus, conhecido como o farol do fim do mundo. A partir de setembro ja eh possivel avistar alguns pinguins e no verao existem passeios mais longos que vao ate a Estancia Harberton e do porto tambem saem os cruzeiros para a Antartida. Leve bastante agasalho, pois mesmo que o barco seja coberto, todos saem para tirar fotos e observer os animais na parte externa e faz muito frio e venta bastante. A visibilidade hoje estava otima e deu para curtir bastante o passeio.

Ushuaia 210

Dali ja fui diretamente para a avenida principal, pois precisava urgentemente comprar uma bota para neve. Levei minha bota de trekking, mas por mais que seja waterproof, os pes nao chegam a molhar, mas a umidade por cima da bota congela os pes. Os guias e o recepcionista do hotel me indicaram a marca a Sorel. Nunca tinha ouvido falar, mas nao ha indicacao melhor do que a dos locais. Comecerei a reparar e quase todos os moradores de Ushuaia usam estas botas. E ela nao eh cara, sao otimas e custam  apenas 300 pesos. Eles me indicaram uma loja chamada Scandinavia e realmente recomendo. Alem de ser a unica da avenida a vender essas botas e roupas da Columbia, o cambio de dolar para peso eh melhor do que as proprias casas de cambio. Tambem indico a loja Campamento Base, onde comprei roupas femininas de marcas como Roxy e NorthLand. A maior delas eh a Popper, mas alem de ser mais cara, nao tem tanta diversidade de produtos e nao vende Columbia ou The North Face, a maioria eh Salomon. Os precos de Ushuaia sao melhores do que outras cidades, como El Calafate por exemplo, pois eh uma zona  franca, como Manaus, e os produtos estao isentos de taxas.

Amanha terei uma Aventura em 4×4 pela regiao dos lagos fueguinos e me despeco com esta linda foto do por-do-sol e da costa de Ushuaia vista do Canal Beagle…

Ushuaia 276

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El Calafate e Ushuaia – Dia 3

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Hoje foi meu ultimo dia em El Calafate e tinha apenas a parte da manha para passear, pois a tarde embarcaria para Ushuaia, meu proximo destino. Aproveitei para conhecer o centrinho, concentrado principalmente na Avenida del Libertador General San Martin. Como havia nevado durante a madrugada, a temperaura caiu e havia pedacos de gelo e neve pela calcada. Tive que caminhar bem devagar para nao escorregar. Ventava bastante e a sensacao termica era bem menor do que os 2 graus que marcavam no termometro. A cidade de El Calafate conta com uma populacao de 12000 habitantes atualmente, mas que na alta temporada (verao) pode chegar a quase dobrar de tamanho e receber cerca de 10000 visitantes. Ontem, a caminho de Perito Moreno, descobri que o nome da cidade nao eh so pelo fruto, mas pelo arbusto de mesmo nome. E foi batizado assim, pois as primeiras embarcaoes que chegaram ao local precisavam ser consertadas e, por ser um clima seco e semi-arido, nao existiam arvores e muito menos madeira. E descobriram que a folha deste arbusto era otimo para calafetar os barcos. Por isso o nome de El Calafate.

Caminhando pela avenida principal, pude perceber que eh ali que tudo acontece. A maioria das lojas de artigos esportivos, de artesanato, souvenirs, chocolates, galerias, sorveterias, restaurantes e ate cassino estao localizadas nesta avenida. Existem alguns museus e o glaciarium para visitar, mas as principais atracoes estao fora da cidade. Um destaque para a Galeria de Arte – Arte Indio, que oferece artesanatos indigenas de muito bom gusto. A loja eh grande e vale a pena caminhar e ver as pecas, sao lindas.

Dali voltei a pe para o hotel, onde o transfer jame esperava. Chegando ao aeroporto, no momento do check-in a atendente ja informou que o voo estava dependendo ainda de confirmacao, pois em Ushuaia estava com as condicoes climaticas comprometidas. O voo atrasou um pouco mais de meia hora, mas conseguimos embarcar. Pouco antes de descermos o piloto informou que o tempo em Ushuaia estava muito ruim e o aeroporto estava fechado. Teriamos que aguardar a permissao por meia hora e, caso contrario, teriamos que retornar a El Calafate. Neste momento a ansiedade tomou conta e ja comecei a pensar como faria, se perderia meus passeios programados para amanha, onde dormiria, quando voltaria para Ushuaia, mas felizmente fui interrompida pela voz do piloto dizendo que o nosso pouso havia sido autorizado. Relaxei, mas a tranquilidade durou pouco. Nao era possivel enxergar nada pela janela do aviao, estava anoitecendo e nao dava para saber quando e como iriamos pousar. A tensao tomou conta de mim e dos outros passageiros. Estava com medo, mas ao mesmo tempo louca para chegar em Ushuaia. Quando nos aproximamos do solo era possivel ver que nevava muito, mas muito mesmo. Nesta hora o unico pensamento era  “Seja o que Deus quiser!”. E Ele quis que chegassemos com seguranca. Com um belo tranco, mas pousamos com sob muitos aplausos dos passageiros. A pista estava toda coberta de neve, mas a partir do momento que o aviao parou no finger, deixou de ser preocupacao e passou a ser motivo de euforia, principalmente dos brasileiros. Logo depois de pegar minha mala na esteira, passei no balcao de informacoes do aeroporto para carimbar meu passaporte com ” Ushuaia – a cidade mais austral do mundo”.

Se a chegada ao fim do mundo ja foi uma grande aventura, imagino o que me espera para os proximos dias. Amanha tem trem do fim do mundo e passeio de barco pelo Canal Beagle, mal posso esperar!

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El Calafate – Glaciar Perito Moreno – Dia 2

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Chegou o grande dia de conhecer o Glaciar Perito Moreno! Foi o maior motivo que me trouxe a El Calafate e, pelo que pude perceber, eh a principal atracao e o que impulsiona o turismo da regiao. El Calafate eh conhecida como a capital nacional dos glaciares, ja que grande parte dos glaciares do mundo esta localizada aqui, principalmente no Parque Nacional Los Glaciares. Este parque ocupa cerca de 724.000 hectares e em 1981 foi considerado pela UNESCO Patrimonio Mundial da Humanidade. Ali se pode encontrar 47 dos grandes Glaciares e inumeras geleiras menores. Ao norte do parque esta localizada El Chalten, a capital argentina do trekking e a porta de entrada para o incrivel monte Fitz Roy e o Cerro Torre. Conversando com guias, garcons e funcionarios do hotel pude verificar a importancia de El Chalten para o turismo esportivo e de aventura e ja anotei na minha “wish list”, pois quero voltar para fazer um trekking autoguiado de 3 horas e quem sabe chegar ate a base do Fitz Roy….enfim, este eh o tema de uma proxima viagem, por isso vamos voltar aos glaciares.

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Para quem nunca viu um glaciar, a melhor forma de ilustra-lo eh imaginar uma enorme “lingua de gelo” descendo entre as montanhas. O gelo dos glaciares sao formados por camadas de neve que, durante muitos e muitos anos, foram depositando camadas de neve uma em cima da outra e resultando em uma densa massa de neve compactada e recristalizada. E o passeio para Perito Moreno tem como objetivo avistar  a ponta desta “lingua”. Para dimensionar o que estou falando e a grandiosidade de Perito Moreno, a ponta desta “lingua” possui cerca de 5km de frente e 60 metros de altura sobre a agua. Sem falar que os glaciares sao a maior reserve de agua doce de todo o mundo.

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Assim como El Chalten, 0 Glaciar Perito Moreno tambem fica dentro do Parque Nacional Los Glaciares, so que na parte sul. O trajeto de El Calafate para o Parque eh de 80km e dura aproximadamente 1 hora e meia. Saimos do hotel por volta de 9 e meia da manha, pois nesta epoca do ano o amanhecer ocorre por volta deste horario e no trajeto pudemos conferir belas paisagens, fauna e flora locais e tirar fotos incriveis como esta:

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Como podem ver, proximo a El Calafate o tempo estava lindo, mas logo na entrada do Parque o tempo virou e comecou a chover. Dizem que o clima proximo a Cordilheira dos Andes eh assim mesmo, muito instavel. Mas ja comecava a pensar o quanto o clima comprometeria o meu passeio e, principalmente, as minhas fotos. Paramos em um mirante com o objetivo de ter a primeira vista do Glaciar, mas quase nao dava pra ver nada, pois chovia e ventava bastante. Meu passeio incluia a visita as passarelas, mas havia um opcional: um passeio de barco para avistar a face sul do Glaciar. Cheguei a pensar em nao ir, mas resolvi apostar na inconstancia do clima. Afinal, era minha unica esperanca naquele momento. O clima nao mudou nada e para piorar a chuva e o vento pioraram. Todos estavam na parte de baixo e coberta da embarcacao, mas assim que anunciaram que estavamos chegando proximos do Glaciar, coloquei meu anoraki e subi. Afinal, nao eh todos os dias que se ve um Glaciar tao de perto. Apesar da minha roupa estar apropriada para o momento, minhas luvas, minha mochila nao eram impermeaveis e ficaram encharcadas. Minha mae congelava e tentava (em vao) proteger minha maquina da chuva, mas era inevitavel as gotas cairem na lente. Mas ao avistar o Glaciar esqueci por alguns minutos destes detalhes perturbadores e tentava registrar com os olhos e com a maquina, a maior quantidade de momentos possivel.

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Do barco, seguimos para as passarelas, localizadas na Peninsula Magallanes, de onde eh possivel observer o meio e a face norte do Glaciar. Através destas passarelas de madeira, é possível chegar com segurança bem proximo do Glaciar e de suas majestosas paredes com 50 tons de azul. Bem que eu queria ver o Glaciar emoldurado por um ceu Azul, lindo e sem nuvens, mas a guia me disse que eh o clima mais acinzentado que faz com que o Perito Moreno fique mais azulado e, segundo ela, um pouco mais bonito do que o branco, predominante em dias claros. De todas as formas e de todos os angulos, a sensacao de estar diante de uma beleza natural de tamanha magnitude, me fez ficar paralisada  e extasiada com tamanha exuberancia. Me desculpem os brasileiros, mas fiquei com uma pontinha de inveja dos argentinos por possuirem este patrimonio natural em seu territorio. E o Perito Moreno eh o unico glaciar do mundo onde o turista pode chegar tao perto e com pouco esforco. Digo isto, pois este eh o unico glaciar que possui uma parte de terra proxima. Alem disso, eh o unico Glaciar em movimento. Perito Moreno avanca a uma velocidade de 2 metros por dia e por isso podemos ouvir barulhos partindo do Glaciar, pois os imensos blocos de gelo se chocam, se racham e o atrito com as pedras do solo provocam barulhos semelhantes a rugidos. Dizem que o motivo desta movimentacao eh porque o Glaciar Perito Moreno funciona como a “valvula de escape” do Campo de Gelo Patagonico Sul. Outra grande vantagem de Perito Moreno eh que, comparado a outros glaciares que estão retrocedendo, ele continua em equilíbrio, recebendo e produzindo gelo na mesma proporção que o perde. Por isto, qualquer visitante poderá observar a quebra e queda de imensos blocos de gelo, que se desprendem de suas paredes. Um espetáculo único e a verdadeira demonstração de poder  de Deus e da natureza que criou.

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Uma outra maneira de conhecer o Glaciar, é realizando um trekking. Trata-se de uma caminhada guiada, de aproximadamente 2 horas, por cima do gelo usando “grampones” por sobre o calçado. O passeio ocorre em uma zona estável  e segura, onde não há riscos de desabamentos. Pena que os passeios acontecem so na primavera e no verao. O lado bom eh que encontrei um otimo motivo para voltar!

E para os mais sortudos, recomendo assistir ao fenomeno do Rompimento do Glaciar. Explico: de tempos em tempos, quando a produção de gelo é maior do que a perda, o Glaciar avança até tocar a terra e represa a agua a sua frente. Com o passar dos dias, a massa de gelo cresce e com ela o nível da agua represada. Quando a pressão da água consegue furar a resistência do gelo, um pequeno túnel se forma. Com o atrito da agua, a gigantesca ponte de gelo acaba se rompendo com um enorme estrondo e atirando pedaços de gelo para todos os lados. O Rompimento eh um espetaculo esperado e registrado por muitos, mas que conta bastante com o fator sorte, pois a ultima vez que isto ocorreu foi em 2008 e sem prazo definido para que ocorra novamente.

Apos uma caminhada (com muitas paradas) de quase 1 hora e meia pelas passarelas, fui ao refeitorio comer um lance e voltei para o hotel por volta das 15:00. Estava exausta e acabei jantando no restaurant do hotel mesmo. Comida muito boa, mas caro tambem (200 pesos!) , como tudo nesta cidade! E dizem que estamos na baixa temporada…

Amanha vou conhecer um pouco do centro de El Calafate pela manha e a tarde voo rumo a Ushuaia, meu proximo destino!

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