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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni-Dia 2|Parte I

DSCN2380Hoje é o primeiro dia propriamente dito em San Pedro do Atacama. E para compensar o dia cansativo de ontem e ajudar na adaptação da altitude e clima seco, pudemos dormir até as 9:00AM, pois o city tour começava apenas as 10:30. Isto apenas na teoria, pois apesar de ter sido praticamente nocauteada com o “terremoto” da noite passada, a ansiedade de conhecer e explorar o lugar me despertou mais cedo. Aproveitei o tempo livre para conhecer e fotografar o nosso hotel. Vim para o Altiplanico por sugestão de uma amiga que já havia se hospedado aqui e não me arrependi de seguir o seu conselho. O Hotel é uma graça, todo feito de adobe e com uma decoração típica, muito charmosa e acolhedora. O café da manhã não é um banquete, mas é bem completo e saboroso. Por ficar um pouco mais afastado do centro de San Pedro (cerca de 10 minutos a pé), o silêncio é uma das coisas que mais me chamou a atenção, além do atendimento cordial de toda a equipe.  Dos 32 quartos do hotel, apenas 4 tem uma varanda na parte superior e fomos contemplados com este privilégio. Dali se pode ter a  vista privilegiada de todo o hotel e do nosso grande companheiro de viagem: o Vulcão Licancabur.

Piscina do Hotel Altiplanico

Piscina do Hotel Altiplanico

O hotel conta com piscina de água fria, sofás ao livre, sala de leitura, estacionamento e chás, café e águas aromatizadas para se servir a vontade no lobby, além de almoço e jantar. Nosso regime de alimentação compreendia apenas café da manhã, mas caso um dia chegássemos cansados do passeio, saber que existe refeição no próprio hotel gera de certa forma um alívio. Um dos únicos pontos negativos foi a internet wi-fi que deveria pegar no hotel todo, mas que em nosso quarto não tinha sinal. E também senti falta de água mineral de graça, pois sei que muitos hotéis semelhantes ao nosso disponibilizam aos hóspedes, já que é um dos itens principais do “kit sobrevivência” aqui no deserto. Mas de uma forma geral, o hotel nos atendeu muitíssimo bem, até porque sua categoria é media, ou seja, 3/4 estrelas. A opção para hospedagem aqui em San Pedro é enorme, de campings e mochileiros a hoteis super luxuosos, mas falarei sobre isso com mais detalhes em um outro post. Mas o que mais nos chamou a atenção neste primeiro dia de hotel foi um pavão que vive no hotel. Do café da manhã pudemos presenciar todo o seu esforço em conquistar uma pavoa que, muito esnobe, fazia pouco caso dele. Chegava a ser até engraçado sua tamanha insistência, mas apesar da diversão era impossível ignorar a beleza impressionante de suas penas em forma de leque.

O pavão conquistador

O pavão conquistador

San Pedro de Atacama é um povoado pequeno com menos de 5 mil habitantes e seu nome se deve ao santo patrono San Pedro e pela palavra Atacama que, segundo os ancestrais  vem do idioma Cunza “Accatcha” que significa “a cabeça do país”. Para nos situarmos geograficamente, estamos na parte norte do Chile, mais precisamente na Região de Antofagasta. Aqui se destacam a capital de mesmo nome, banhada pelo Pacífico; Iquique, zona franca e também litorânea; Calama, cidade com poucos atrativos, próxima à mina Chuquicamata (maior mina de cobre à ceu aberto do mundo supervisionada pela Codelco) e entrada para o deserto;  e San Pedro do Atacama, que apesar de pequena é o local ideal para se ter como base com o intuito de explorar a região. Esta área foi antigamente habitada por povos nômades e que por volta de 1450 foi conquistada pelos incas. Em 1540, a batalha de Quitor, liderada pelo espanhol Pedro Valdivia, marcou a chegada e o ínicio da dominação espanhola. Mesmo apoiados pelos incas, os atacamenhos são vencidos e a cultura hispânica passa ser a dominante no local.  Inclusive existe ainda hoje a casa onde Valdivia se hospedou quando passou por SPA. Chama-se Casa Incaica e fica localizada na Plaza de Armas, a principal do vilarejo.

Plaza de Armas

Plaza de Armas

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Gustavo Le Paige

Mas seria injusto falar da história de San Pedro de Atacama sem mencionar uma das figuras mais representativas deste vilarejo-oásis: o padre e também arqueólogo Gustavo Le Paige. Este jesuíta belga chegou ao norte do Chile  na década de 50 com o intuito de substituir um companheiro de estudos e ordenação, o padre Alberto Hurtado. Mas dizem por aqui que a vinda de Le Paige para o Atacama foi uma espécie de punição da Igreja. Ele teria pintado quadros ousados demais, o que teria desagradado alguns cardeais e como pena mandaram o padre belga para o fim do mundo, ou seja, para o Deserto do Atacama. Não sei se é verdade, mas castigo ou não, Le Paige pelo jeito gostou muito de ter vindo para cá. Le Paige dedicou mais de 20 anos de sua vida como padre e, principalmente, arqueólogo da localidade. Como disse no post anterior, o clima extremamente árido da região explica a conservação dos objetos e ao longo dos anos coletou muito material arqueológico. Dentre eles peças de cerâmica, objetos de caça, pedaços de tecido e algumas múmias que descrevem a evolução dos povos  que habitaram a região desde 11 mil anos atrás. Grande parte do acervo está exposto no Museu Arqueológico Gustavo Le Paige, localizada em San Pedro de Atacama, na rua que também leva o seu nome. Este museu foi fundado por Le Paige em 1955, com o apoio da comunidade local e a Universidade Católica do Norte. Além de seu grande trabalho como arqueólogo, Le Paige ajudou a comunidade atacamenha, impulsionando a construção de obras com interesse social como hospitais, escolas e estradas. Ao lado do museu existe um “Solmaforo” que mede e classifica a incidência de raios ultravioleta a qual estamos submetidos naquele momento. Além da altitude e aridez, ainda temos que enfrentar nível extremo, veja só:

Solmaforo

Solmaforo

DSCN2409Ali na Plaza de Armas esta localizada a charmosa e centenária Igreja de San Pedro de Atacama. Suas paredes são de adobe e o teto e as portas são em madeira de cacto cardón. Para a estrutura foi utilizada madeira couro de animais e pregos.  Foi inaugurada no século 17 com  uma missa do padre Cristóbal Diaz de Los Santos e exatamente 400 anos mais tarde foi declarada Monumento Nacional. Apesar dos tetos e as portas da igreja terem sido feitos com madeira de cacto, atualmente ele está protegido visando sua preservação e sua madeira só pode ser utilizada por indígenas depois que está morto. Os muros da igreja foram construídos depois e datam de 1745 e a torre do sino de 1890. A sua cor branca com detalhes em azul, além dos arcos com dentes, me lembram um pouco a Grécia, o mar e me faz pensar se teria alguma influência mitológica. Mas pensar em Netuno no meio do deserto soa bastante esquisito.

Igreja de São Pedro de Atacama

Igreja de São Pedro de Atacama

Árvore de Chañar

Árvore de Chañar

O city tour percorre outras ruas do vilarejo fora o eixo Caracoles, onde fica a maioria  das lojas, restaurantes e agências de viagens/passeios. Com o guia pudemos aprender algumas “manhas” que transformam a nossa vida e estadia em San Pedro um pouco mais comoda e economica. Alguns exemplos: comprar água em mercados ou lojas fora da C. Caracoles custa 20% menos; as casas de câmbio estão quase todas localizadas na Calle Toconao; o lugar melhor e mais barato para se comprar um vinho ou cerveja é nas “Botillerias”;  sempre que puder vá ao mercado acompanhado de algum chileno, a diferença de preço varia muito; e por aí vai. Pelo caminho passamos por algumas árvores típicas da região, como o chañar, o algarrobo, pimenta vermelha e chirimoya, além do rica-rica. Com a semente do chañar, redondinha e com gosto de bolacha ou granola, se faz xarope ou sorvete, além de artesanato. Por possuir alto valor nutritivo, essas sementes eram ouro para os indigenas que as utilizavam como alimento próprio e também para os animais. O algarrobo é uma árvore com troncos retorcidos e sua vagem também é desta forma pela falta de umidade. Da vagem se pode fazer farinha e uma bebida fermentada chamada aloja. Normalmente, se o indigena oferece aloja para um convidado significa que ele é muito bem-vindo.  Já a chirimoya é uma fruta saborosa  típica da região dos andes, parecida com uma pinha. O sorvete de chirimoya, rica-rica e chañar são deliciosos e podem ser encontrados nas sorveterias de San Pedro de Atacama, além de sabores inusitados como de quinoa e folha de coca!

Sorveteria e os sabores típicos da região

Sorveteria e os sabores típicos da região

Terminamos nosso tour e a primeira parte deste post com um almoço em um restaurante indicado pelo guia. O nome é Baltinache e é uma mescla de comida atacamenha e mapuche. O menu com entrada, prato principal e sobremesa saiu por 7.000 pesos ( R$ 38.00 mais ou menos). Comida saborosa, saudável (aqui tem muita quinoa!), mas sem surpreender. Se for ao restaurante, pedir um prato com uma batata azul,típica da região, mas difícil de encontrar. Hoje, por exemplo, não tinha. Fica um pouco afastado do centro, mas para almoço achei uma boa opção.

Resolvi dividir o segundo dia em dois posts para não ficar muito grande e pesado de ler. A segunda parte do post é sobre o incrível passeio da tarde para o Vale da Lua e Vale da Morte, com o entardecer mais diferente que eu já vi!

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