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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni – Dia 3

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Hoje começa o meu terceiro dia de viagem aqui no Atacama e só agora vou praticar alguma atividade física, propriamente dita.  Já estou bem mais acostumada com a altitude (2400m) e também com o ar seco. Na primeira noite, acordei umas 4 vezes e nesta apenas uma vez. Umidificar o nariz com soro fisiológico foi uma coisa que eu não tinha o hábito de fazer aqui em São Paulo, mesmo nos dias mais secos e poluídos. Mas aqui no Atacama já está começando a virar um hábito necessário. Hidratação é o grande segredo aqui no deserto, pois ajuda não só com a secura, mas também com a aclimatação na altitude. E tem que ser gradual, um pequeno gole a cada 20 minutos. Caso contrário, terá vontade de urinar toda hora e aqui no deserto a oferta de banheiros é, no mínimo, escassa. Sem falar no quanto de dinheiro que é gasto com banheiro por aqui, principalmente pelas mulheres. O jeito é apelar muitas vezes  pelo banheiro “natural”, normalmente atrás de uma pedra ou do carro. Tenho poucos dias aqui no Atacama, mas já pude notar que aqui aprendemos a valorizar coisas que para nós parece ser algo simples e comum. E banheiro com certeza é uma delas!

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A manhã começou com um incrível e exaustivo passeio de bike. Foram 4 horas pedalando pelo deserto salgado. O chão estava esbranquiçado devido a neve que caiu há um mês por aqui e a umidade faz com que o sal presente nos sedimentos deste solo venham à superfície. Mas a paisagem que vimos durante o passeio não era comum para esta época do ano e a neve que caiu menos ainda. Como vemos neve nos picos, achei que era comum nevar no Atacama. Mas o guia  nos disse que a neve é ainda mais rara que a chuva aqui no deserto. Neve no Atacama é a mesma coisa que nevar na Bahia, segundo ele. Só sinto de não ter tido a oportunidade de ver este fenômeno inusitado de perto. A sensação de pedalar em um lugar inóspito e praticamente desabitado é, ao mesmo tempo, única, exaustiva e muito recompensadora. É como se o deserto tivesse sido especialmente reservado para nós. Durante todo o passeio fomos acompanhados de um guia que conhece muito bem a região, além de uma van e um motorista que nos oferece todo o suporte necessário. As mountain bikes também já estão inclusas. Nossa única preocupação era pedalar e admirar o cenário a nossa volta.

Cenário da pedalada

Cenário da pedalada

O nosso guia que também é dono de uma agência local, nos levou a este lugar exclusivo que ele mesmo apelidou de “Vale de la Luna Escondido”.  Pelo caminho pudemos visitar uma mina de sal abandonada, avistar campos minados e visitar cenários que mais pareciam filmes de faroeste e que inclusive foram palco de um ensaio fotográfico para a campanha de uma grife argentina, a Beagle. Mas existem muitos outros lugares menos exclusivos que podem ser explorados de bike. Aliás é um dos meios mais econômicos de se conhecer os arredores de San Pedro de Atacama. O aluguel de uma bike vai custar, em média, R$25 por pessoa por 4 horas. Uma opção é conhecer a Quebrada del Diablo, um labirinto no meio da Cordilheira de Sal, ou se preferir um passeio mais cultural, Pukara de Quitor ou a Aldea de Tulor. Pukara de Quitor era uma fortaleza que serviu de local para a batalha que determinou a conquista espanhol sobre os índios atacamenhos. Possui uma subida cansativa, mas a vista lá de cima compensa seu esforço. Já a Aldea de Tulor abriga casas circulares que estão juntas entre sei e hoje se encontram a 1m abaixo do nível do solo. É preciso pagar uma entrada de R$15 por pessoa para visitar cada atração. E, claro, como em todo passeio no deserto, não se esqueça de ir sempre acompanhado e levar seu “kit sobrevivência” (filtro solar, boné, óculos de sol e água) e sua máquina fotográfica ou celular para registrar tudo.

Laguna Cejar

Laguna Cejar

DSCN2723Depois de um belo banho e um almoço caprichado no hotel, partimos na parte da tarde para um outro passeio incrível. É difícil achar um programa chato em um lugar onde até um citytour a pé se torna interessante, pelo menos para mim. Nossa primeira parada foi na Laguna Cejar, após quase meia hora por um caminho arenoso e de muitos sacolejos na van . Essa lagoa está localizada na parte norte do Salar do Atacama e, apesar de sua cor esmeralda, atrai os turistas por outro motivo. Suas águas contém uma enorme quantidade de sal (7 vezes maior que o Mar Morto) e, por isso, é impossível afundar. Chegamos ali e havia muita gente dentro e fora dela. Já sabia da “fama” desta lagoa antes de chegar aqui e não havia cogitado ainda a hipótese de não entrar. Mas minha expectativa foi quase a zero quando coloquei as mãos na água. Quem me conhece sabe que, ao contrário da maioria das mulheres, não sou friorenta. Mas ventava bastante neste dia e pensar que teria que entrar naquela água congelante e sair, sem ter onde me abrigar depois, definitivamente não estava em meus planos. Quem já leu meus posts anteriores, não só do Atacama, sabe que tenho um frase que levo na minha mala sempre que viajo: é melhor ir e fazer do que se arrepender depois de não ter ido ou feito. E claro que não precisou de  mais de 2 minutos refletindo para já estar tirando minha roupa (estava com maiô por baixo) e entrar naquela lagoa. Afinal, não sei quando terei e se terei uma oportunidade desta outra vez. A primeira sensação é de choque térmico, a água estava realmente muuuuito fria. Mas quando começa a brincar de boiar, você se esquece e se acostuma facilmente. É preciso tomar muito cuidado com o lugar que você entra e pisa, pois a quantidade de sal é tão grande que se formam muitos cristais e suas pontas são muito afiadas. Por isso, antes de entrar pergunte para o seu guia ou a alguém que conheça a região para lhe indicar um local seguro. Após alguns minutos de diversão, me iludi e pensei que o pior havia passado, mas mal sabia que ele ainda estava por vir. A sensação ao sair da lagoa era de que havia um milhão de agulhas picando meu corpo. Na hora me veio à mente uma reportagem que li há alguns anos atrás na Super Interessante sobre como o sal no gelo acelera o resfriamento da cerveja. Em contato direto com o gelo, o sal puxa calor das pedras de gelo, que ficam ainda mais frias. Mas o grande problema é que a cerveja, no caso, era eu! E além do frio a grande quantidade de sal que fica em seu corpo te deixa com uma coceira irritante. Mas apesar do desconforto é uma experiênciasensacional, como quase tudo aqui neste lugar.

Ojos de Tebinquiche

Ojos de Tebinquiche

Continuando pelo caminho sentido centro do Salar do Atacama, chegamos ao Ojos de Tebinquiche, pequenos poços fundos de água doce onde pudemos ter a chance de tomar mais um banho ou apenas apreciar o Salar do Atacama. Já estava seca novamente e preferi ficar apenas na contemplação. Mas o fato de estarmos no meio de um dos maiores salares do mundo me deixou intrigada de como a água daqueles poços poderia ser doce. Javier, nosso guia que manja tudo de tudo, me veio com a seguinte frase: “La naturaleza és sabia” (a natureza é sábia). Mas diante da minha cara de “eu-não-me-contentei-com-a-resposta-e-sei-que-você-sabe-um-pouco-mais”, Javier me explicou que o norte do Salar é uma região lacustre e composta por oásis banhados pelo Rio San Pedro. Mas a água que alimenta as lagoas e os “ojos”, principalmente, vem da pouca chuva que cai sobre o deserto, do degelo e de rios subterrâneos vindos dos Andes. E uma das únicas explicações para a excepcional água doce dos “ojos”, além da sabedoria da natureza, é a provável presença de filtros naturais no caminho dessas águas, como carvão, areia, etc. E um truque para saber onde encontrar água doce no Salar é seguir os burros selvagens, pois eles só bebem água doce.

Laguna Tebinquiche

Laguna Tebinquiche

Nosso happy hour no deserto!

Nosso happy hour no deserto!

Dali seguimos finalmente rumo Laguna Tebinquiche, uma lâmina de água repleta de ilhas de sal e flamingos. Caminhamos pela borda da lagoa e aos poucos o sol começa a se por detrás das montanhas no lado oposto à Cordilheira dos Andes. Enquanto admirávamos toda aquela vista e nos sentíamos as pessoas mais privilegiadas do planeta, fomos convidados a nos servir de petiscos, frutas secas, castanhas e uma taça de vinho oferecida pelo nosso guia. Desfrutamos de momentos deliciosos enquanto víamos os últimos raios de sol pintarem a Cordilheira dos Andes e seus vulcões de tons azuis e violetas. Era impossível imaginar que aquele momento poderia ficar mais perfeito até ver uma bola branca sair por detrás da Cordilheira. Era a lua cheia que vinha nos dar boas-vindas e enquanto que, do outro lado, o sol se despedia. Um espetáculo surpreendente, tão lindo e tão intenso quanto o pôr-do-sol no Vale da Lua! Pelo que tenho visto até agora, acho que terei que ler mais o dicionário de fazer os próximos posts. Esse lugar acabou com todo o meu repertório de adjetivos! E, Javier, você tinha razão. A natureza é  sábia e perfeita, assim como o seu Criador!

E de repente nasce a lua...

E de repente nasce a lua…

... e do outro lado o sol se põe...

… e do outro lado o sol se põe…

... pintando as paisagens em tons de vermelho...

… pintando as paisagens em tons de vermelho…

...tons de lilás...

…tons de lilás…

... e também de azul!

… e também de azul!

E para finalizar: um incrível reflexo da lua cheia na lagoa!

E para finalizar: um incrível reflexo da lua cheia na lagoa!

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Deserto do Atacama e Salar do Uyuni-Dia 2|Parte 2

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Após saber um pouco mais da história e cultura da região, por volta das 4:30PM partimos para a segunda parte do dia rumo a um dos passeios mais conhecidos aqui do Atacama: Vale da Lua e da Morte. Quando comecei a descobrir e pesquisar sobre o Atacama, pensava que os dois vales se tratavam de um coisa só e que os passeios por aqui fossem atrações únicas ou desertos clássicos, como aqueles que estão em nosso imaginário desde a época dos desenhos animados. Muita areia, oásis, miragens e alguns camelos. Isto também existe aqui no Atacama, mas com muitos outros ingredientes. Para começar, não existem camelos por aqui, mas animais da mesma família (camelídeos),como lhamas, alpacas e vicuñas. Boa parte região integra a Reserva Nacional dos Flamencos, administrada pela Conaf e compreende cerca de 74 mil hectares.

O VALE DA LUA ou “Valle de La Luna” está localizado a poucos km do centro de San Pedro de Atacama e pode, facilmente, ser alcançada pedalando ou cavalgando. O Vale se encontra em plena Cordilheira de Sal, da qual já tratei no post do Dia 1 e que está paralela a Cordilheira dos Andes, a Cordilheira de Domeyko e ao Salar de Atacama. A Cordilheira e suas várias camadas de sedimentos foram sendo moldados através do tempo pela erosão do vento, da chuva e de outros agentes atmosféricos, fazendo surgir impessionantes  formas, cores e brilhos minerais, compostos basicamente de sal, gesso, clorato, borato e argila. O resultado é uma incrível paisagem inóspita, de diferentes tons de vermelho e espetaculares  esculturas naturais.

Vale da Lua visto do Mirante de Cari

Vale da Lua visto do Mirante de Cari

A nossa primeira parada é no MIRANTE DE CARI, de onde pudemos ter uma linda vista do Vale e podemos nos situar geograficamente. Dali avistamos os Andes e o Salar do Atacama. A ausência de vida animal e vegetal, a falta de umidade, além da grande extensão de areia salpicadas pelo branco do sal que sobe a superfície, nos dá a sensação de estarmos em algum cenário de filme de ficção científica, em outro planeta e até mesmo na lua. Ali compreendemos a razão do nome deste lugar que dizem que foi dado por Gustavo Le Paige, o protagonista do post anterior. Este é o lugar preferido da NASA quando quer testar seus protótipos já que, de acordo com os seus cientistas , é o lugar da Terra mais parecido geologicamente com Marte. Depois da contemplação vem a diversão dos fotógrafos e turistas, já que com muita habilidade e criatividade é possível tirar fotos incríveis e dignas de um porta-retrato ou  “foto de capa” do Facebook. O cenário mais procurado e concorrido é a PEDRA DO COYOTE e pela foto abaixo nem preciso explicar a razão da disputa:

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Dali partimos para o VALE DA MORTE, bem próximo do Mirante de Cari. O vale possui 2 km de extensão e do Mirante é possível ver uma paisagem avermelhada e semelhante ao Vale da Lua, mas com algumas dunas e a Cordilheira dos Andes ao fundo. A cadeia de vulcões e seus picos nevados se fundem com o belo céu atacamenho e nos mostra um horizonte incrível e de tirar o fôlego. Normalmente, os tours fazem apenas uma pequena e rápida parada por aqui e não o cruzam por completo. Mas para quem quiser explorar mais esse Vale, existe a possibilidade de fazer um passeio específico para cá ou ir até o local em cavalos. No entanto, a grande “pegada” do lugar é a prática de SANDBOARD. É possível encontrar passeios (inclusive noturnos) que incluem transporte, prancha e instrutor e é uma ótima combinação de adrenalina e aventura com um visual incrível e bem diferente de tudo que você já viu e vivenciou!

Vale da Morte

Vale da Morte

Existem algumas teorias para o nome do lugar. A primeira porque o local é muito seco e não há vida. Outra, por uma confusão de nomes. Quando Le Paige viu este lugar pela primeira vez, o chamou de “Vale de Marte”, devido à cor avermelhada do solo, como o planeta vermelho. Ao pronunciar “Marte” em francês, confundiram com “morte” e o nome pegou. E uma última que dizia que quando as pessoas estavam muito doentes, os indígenas levavam a pessoa até este Vale e deixavam que a “Pacha Mama” decidisse seu destino. E por muitas pessoas terem morrido neste local, o nome ficou como Vale da Morte. Eu, sinceramente, não sei em qual acreditar, já que todas me parecem bem plausíveis.

Do Vale da Morte seguimos diretamente para a entrada da Reserva. No trajeto passamos pelas TRÊS MARIAS, um rochedo de três pontas que lembram três mulheres e o ANFITEATRO, que visto de cima, lembra uma imensa arena. Bem próximo de onde se paga a entrada do parque de 2.500 pesos chilenos por pessoa (cerca de R$15), existe uma caverna e algumas fendas para atravessar (com o auxilio de lanternas) e depois uma pequena escalada em um morro para ter mais uma vez uma bela vista do local. Não há grandes dificuldades neste passeio, desde que você não tenha problemas de claustrofobia ou de coluna e joelho, já que algumas vezes é preciso agachar bastante e andar curvado. O interessante é verificar a presença de corais petrificados e de cristais de sal nas paredes, já que a cordilheira de sal é um lago emergido há mais de 23 milhões de anos. Saímos dali e seguimos para uma parede de pedra, onde pudemos ouvir bem sutilmente o barulho dos cristais de sal dilatando e se encolhendo conforme a temperatura. O barulho lembra muito, mas em menor proporção, o ranger do gelo nos glaciares.

Corais petrificados e cristais de sal em destaque

Corais petrificados e cristais de sal em destaque

E, por fim, seguimos para a DUNA MAYOR, onde pudemos ver o tão esperado pôr-do-sol.  A subida é um pouco cansativa, mas totalmente recompensadora. O entardecer deixa as cores avermelhadas desta parte do deserto ainda mais fortes e belas. A sensação é mágica, principalmente pela presença da lua cheia neste dia. Nunca vi uma paisagem tão distinta, tão natural e tão linda! Um verdadeiro espetáculo da natureza que, com  aquela aparência tão intocada e selvagem, te leva, mesmo que por alguns instantes, para um mundo paralelo, onde parece não existir mais ninguém. Apenas você e Deus! Naquele momento eu só pensava que eu precisa ter visto isso antes de morrer.  Senti uma das sensações mais magníficas da minha vida, uma mistura de emoção, prazer, paz e de sonho realizado. E são momentos como estes que me fazem refletir sobre a soberania de Deus. Além disso, me realizo como pessoa e reafirmo a certeza que me move: viajar nos faz mais ricos! A cada viagem que eu faço, eu conheço mais, atravesso barreiras internas, supero meus limites e expando meus horizontes. Enfim, viajar me transforma em uma pessoa melhor e não só para mim, mas para os outros também.

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

Sequência pôr-do-sol!

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Sequência pôr-do-sol!

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Sequência pôr-do-sol

Nesta noite jantei no hotel, pois apesar da realização,  chegamos tarde e o dia foi cheio! Precisava descansar para aguentar 4 horas de bike pela manhã e a tarde Laguna Cejar!

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